Aberto: Segunda a Sábado / 24 horas

Sem o mocotó não haveria caldo, sem o caldo não haveria histórias. Mas no bar do Nonô a situação é favorável, o caldo de mocotó é farto e as histórias também. Por semana, são em média 300 mocotós que garantem o caldo durante as 24 diárias de funcionamento do bar do Nonô, de segunda a sábado. O processo de produção começa na segunda-feira, quando os mocotós chegam à casa da dona Alaídes, viúva do Nonô, na rua Pigmatita, no bairro Caiçaras, zona oeste de Belo Horizonte. A fartura toma conta do ambiente, uma cozinha nos fundos da casa, familiar, aconchegante, exclusiva para a preparação dos mocotós. Brevemente eles irão se transformar em caldo e serão saboreados por diferentes pessoas. Farão parte da vida delas, seja de dia ou à noite, num intervalo para se pegar um ônibus, ou num bate-papo acompanhado à Caracu. Mas essas pessoas que consomem o caldo nem sempre imaginam o que está por trás da substância pronta que encontram no caneco.

De segunda para terça, os mocotós ficam descongelando. Às três horas da manhã de terça-feira, dona Alaídes, dois filhos e um ajudante começam a limpeza dos pés. Dona Alaídes está sentada, vestindo o avental e uma toquinha de lã na cabeça. A faca em punho mostra a habilidade e a experiência na manipulação dos mocotós. Com facilidade, ela corta, raspa e limpa os pés. Após a limpeza são cortados em cinco partes: duas unhas, a panturrilha e a canela dividida ao meio. Depois de cortadas, as canelas são cerradas e o excesso de tutano - gordura que fica dentro do osso - é retirada. Segundo Clelson Corrêa, um dos donos do bar, é o excesso de tutano que deixa o caldo gorduroso e enjoativo, por isso ele deve ser retirado. As partes cortadas são lavadas, escorridas e salgadas. O próximo passo é a fritura. As panelas com óleo bem quente vão dando o tom dourado nas peças fatiadas. O barulho da fritura vindo das panelas conjugado ao som da faca raspando o mocotó preenchem o ambiente, somam-se ao cheiro forte dos elementos que vão resultar no caldo. O que sobra da produção, nem sempre vai para o lixo. O óleo da fritura e o tutano são doados por Dona Alaídes aos conhecidos e amigos. Alguns aproveitam o tutano para fazer remédio de bronquite, outros para dar banho de brilho no cabelo. O óleo pode ser reaproveitado para cozinhar.

Depois de fritos, os mocotós são embalados em sacos e resfriados. Resultado: o pé do boi desfez-se em pedaços, ganhou nova cor, está próximo de transformar-se no líquido viscoso e temperado. Mas não é tão simples, agora começa a segunda etapa, o processo de produção passa para o bar do Nonô. Vamos voltar à rua Tupis, ou se preferir à avenida Amazonas. Tanto faz, qualquer uma das entradas dá acesso ao bar. Os sacos com o mocotó são mandados da casa de Dona Alaídes para o bar, de acordo com a demanda. Mas ela retruca: "Lá é buteco, não é bar", diz. Na cozinha, só trabalham os quatro irmãos, com horários revezados. Somente eles sabem o segredo do tempero, coisa de família. E é lá, no andar de cima, que a confecção do caldo continua. Subidas as escadas de madeira, panelas de alumínio, caixas de cerveja Caracu e muito cheiro de mocotó compõem o cenário. No buteco, o mocotó resfriado passa por um cozimento. Parte dele é cozida até ficar com textura mais firme e é reservada, o restante cozinha até desmanchar. Depois de frio, ele é batido no liquidificador originando um caldo grosso. A substância é então adicionada a uma panela com água fervente temperada e à medida que vai cozinhando mais, vai ganhando o sabor e a tonalidade amarelada. Ao chegar no ponto, as partes do mocotó reservadas são colocadas no caldo.

Está pronto! Agora, as panelas de alumínio, redutos do caldo, vão descendo para o andar de baixo para satisfazer as bocas nervosas que estão ali no balcão do Nonô, todas ansiosas para degustar aquela substância cremosa com pedaços de mocotó e satisfazer suas vontades. Pessoas diferentes, com histórias curiosas. É o caso de Tânia. O cheiro do caldo de mocotó, o barulho das colheres batendo no caneco, o vaivém das latas de caldo subindo e descendo por uma corda parecem incomodá-la. Ela está ali, no balcão do Nonô, conversando e lutando contra a vontade de sentir o sabor daquele caldo. A vaidade, até o momento, fala mais alto. "Estou tentando fazer regime, o caldo é muito calórico", confessa.

Tânia se sente em casa no Bar do Nonô, está com o marido e um amigo. A cerveja no copo mostra que a vaidade às vezes fracassa. Mas no dia-a-dia, ela faz Tânia cometer loucuras. Nos últimos meses, ela conta ter gastado mais de R$ 100,00 com remédios e cremes caríssimos. A culpa aparece em seguida: "Tem hora que eu páro e penso que isso é pecado. Tenho outras prioridades e acabo gastando com a vaidade", revela. Pecado é algo que faz parte da vida de Tânia. Segundo ela, a partir do momento que sabe-se que não pode e faz, é como violar uma lei.

De acordo com o psicanalista Celso Rennó, a vaidade é algo que está diretamente ligada a imagem. E a vaidade estando relacionada com a imagem, estará relacionada com algum ideal. Tânia demonstra isso muito bem ao estabelecer para si mesma um ideal de dar conta do regime, muito mais do que o de ficar magra e bonita.

O bate-papo no Bar do Nonô, regado a cerveja e ao "cheiro" do caldo, acompanha o ritmo do jogo de futebol que está sendo transmitido na TV. Como num jogo, revela surpresas, lances inesperados ...e foi assim que Tânia, embalada pela reflexão de si mesma, começa a descobrir um outro hábito frequente e pecaminoso na sua vida: a Gula. Este pecado ocorre quando o indivíduo tem prazer através da comida e da bebida os elege elementos de satisfação pessoal. O guloso pode renunciar à companhia de outras pessoas em detrimento à companhia da comida e da bebida e isso tem implicações morais, pessoais e também consequências sociais.

O olhar guloso que Tânia lança para um caldo que passa é rapidamente reprimido pela alma vaidosa. Mas o ideal de Tânia vai contra a corrente de seus impulsos, daquilo que a psicanálise chama de pulsão. Ela revela que, apesar de ser vaidosa, come demais, abre a geladeira constantemente à procura de alento. Os lanches, que ela mesma compra para a filha levar para a escola, servem de isca para essa atitude, que ela confessa ser pecaminosa. "Abro a geladeira. Olho. Penso. Fecho e torno a abrir de novo. Como um pedacinho e depois não páro, é um impulso", descreve. A gula, segundo o psicanalista Celso Rennó, "é uma pulsão, digamos, oral, e como tal, ela só quer ser satisfeita". No caso de Tânia, por exemplo, segundo o psicanalista, ela pode estar sendo satisfeita pelo excesso de comida ou pelo excesso do uso de medicamentos.

Depois de comer, cresce-lhe no coração algo parecido com o remorso, uma ira de si. Ela lembra a cena como se a reproduzisse: "Depois que como, sento, fico irada por causa da vaidade. Para Rennó, a associação de vaidade e gula, mediada pelo ideal de "dar conta do regime", acaba desenvolvendo uma frustração, na medida em que, mesmo que não rompa seu propósito, Tânia está continuamente desejando. Esta idéia de que ela não conseguiu abolir o desejo acaba por trazer à tona um pequeno intervalo entre o que ela gostaria de fazer (ideal de dar conta do regime) e o que é possível (real). Tânia, segundo o psicanalista, parece suportar muito pouco estes limites da realidade e lidar mal com as suas próprias limitações, fazendo com que ela busque aumentar ainda mais suas exigências acerca do ideal almejado. Este intervalo produz a culpa e a ira por não ter sido possível cumprir seu desejo.

Frequentadora da Igreja Metodista, Tânia tem o hábito de fazer orações. À noite, antes de dormir, ela pede a Deus para acabar com a gula que sente. Ao analisar a relação entre os pecados que a perseguem, ela percebe que o pedido que faz é um pouco contraditório. "Questiono se eu peço isso a Deus de coração mesmo, ou se é por causa da vaidade", diz.

Enquanto Tânia se sente culpada por tomar apenas um caldo, Orlando da Silva Cortes havia tomado quatro, enquanto aguardava o amigo no balcão do Nonô para ir embora. Coisa natural na vida dele. "Ainda bem que você chegou, se não eu ia ter que tomar mais caldo", disse ao amigo. Fã incontestável do caldo de mocotó do Nonô, Orlando conta que o que mais o atrai no caldo é o tempero. "Se tivesse cadeira no Nonô, eles não iam conseguir me tirar daí".

Os quatro caldos naquela quinta-feira à noite eram apenas aperitivos. Orlando mora longe do bar do Nonô e com certeza iria jantar ainda naquela noite. Segundo ele, a panela de comida que encontra em cima do fogão quando chega em casa, nem sempre é suficiente para satisfazer o seu apetite, mesmo com os caldos digeridos anteriormente. "Tomar quatro caldos prá mim é o mesmo que um. Tomei e estou leve", conta. Segundo ele, quanto mais toma, mais aumenta a vontade. "Como igual frieira brava. Pareço menino aguado, quanto mais dá mais eu quero".

Orlando é mestre de obras, moreno e de grande porte: 130kg distribuídos em 1,90 metro. A cada época trabalha em locais diferentes, dependendo da obra. Mas o trabalho é o único lugar onde não gosta de comer. Ele conta que se comer não dá conta de trabalhar depois. Uma marmita com comida para almoçar na obra é algo inconcebível para ele. "Prefiro não levar, pois sei que não vai dar". É esta a filosofia de Orlando. Ele diz preferir ficar sem comer nada a ter de comer pouco. Um caldo, um pão, um prato de comida nunca bastam, segundo ele, só servem para assanhar o estômago.

Mas quatro caldos ainda não é o recorde de Orlando. Renato Moreira da Silva, um dos vendedores do Nonô, já atendeu o mestre de obras numa dessas manhãs da vida e fez a maior venda de todos os tempos para um único cliente. Orlando tomou 24 doses de conhaque alcatrão, o que corresponde a duas garrafas, oito coca-colas e oito caldos de mocotó. Renato conta que ele ficou no bar das 10h da manhã às 14h. "Me dá mais um conhaque", é a frase que ficou marcada para o vendedor. Crélio Corrêa, um dos filhos do Nonô, estava na gerência do bar nesta tarde. Ele se lembra que Orlando estava acompanhado de um amigo magro, que também se encheu de caldo e conhaque. Eles falaram muito antes de ir embora e demoraram para pagar a conta. A saída dos dois ficou marcada na memória de Crélio. Orlando, que mal se aguentava, carregou o amigo pelo braço. O sujeito magro se esforçava para colocar os pés no chão, mas Orlando seguia atravessando a rua dos Tupis. Logo abaixo, perto da avenida Paraná, os dois caíram em cima de uma barraca de camelô. "Deu polícia", recorda Crélio.

Histórias engraçadas permeiam o cotidiano do mestre de obras. A fome constante e o impulso incontrolável pela comida já resultaram em apelidos como "Jamanta" e "Latão". A relação com a família também guarda momentos engraçados. A esposa e os filhos são evangélicos, só ele não aderiu à religião. No começo foi difícil aceitar, mas agora diz-se acostumado. A esposa se preocupa com ele, pensa que poderá passar mal de tanto comer. Mas isso nunca aconteceu, nem mesmo os exames que fez, de sangue e colesterol, acusaram irregularidades.

Orlando admite que come em excesso, por impulso incontrolável, mas diz não sentir culpa por isso. De acordo com o psicanalista Celso Rennó, a proibição é a primeira condição para que uma pessoa cometa um pecado. Quando não há o sentimento de culpa, decorrente da proibição, não existe falta para esse sujeito. "Em diferentes culturas, por exemplo, o conceito de gula é diferente. Um francês que for a uma churrascaria no Brasil vai achar um absurdo e identificar que todos os brasileiros são gulosos. Entretanto, como Orlando, as pessoas comem muito e não sentem culpa nenhuma, a não ser que passem mal. Se não, isso não as atinge", explica Rennó . Ele diz que o que faz com que o sujeito tenha a sensação de pecado é a transgressão da lei, fundamentalmente, porque há uma certa medida do limite: até aqui é permitido, daqui para frente não é.

Embora não se sinta culpado por comer compulsivamente, em alguns momentos Orlando questiona suas atitudes de comilança. Ele tenta buscar a origem do seu comportamento e acaba refletindo sobre os tempos de criança em que viveu em um orfanato e passou fome. "Ás vezes acho que como assim porque já passei fome", conta. Celso Rennó diz que para Orlando não existe a proibição, porém é o mal estar decorrente do excesso de comida que o leva a questionar o seu próprio comportamento. E o fato de Orlando dizer que não sente culpa mostra que ele quer dar conta do seu mal estar. Segundo Rennó, a historia do orfanato, onde passou fome, tem certamente uma forte influência no comportamento dele hoje, nos levando a pensar que uma gula nunca é um simples pecado capital, mas se estrutura em elementos subjetivos que tem sua raiz na própria historia de cada sujeito. Mas afirmar se Orlando é guloso? "Por um lado sem duvidas, basta verificar, pelo seu relato, como ele come! Por outro lado, parece que Orlando já tem na comilança um ponto de identidade, algo assim como um sobrenome: ele é Orlando, o comilão", afirma Celso Rennó.

Orlando sente prazer através da comida e a elege elemento de satisfação pessoal. Como um verdadeiro "bom de prato", é capaz de renunciar à companhia de outras pessoas em detrimento à companhia da comida. A saída da esposa para a igreja é algo que o deixa feliz, não pelo fato em si, mas pela liberdade de comer sozinho, sem a presença de ninguém para podá-lo. Quando se vê sozinho, Orlando come feliz, sem parar, até não aguentar mais.

"Se tiver uma panela de galinhada, por exemplo, e o pessoal demorar a voltar, ficam sem", conta rindo. Com a barriga cheia, ele se deita no sofá, preenchido e satisfeito. A preguiça chega, toma conta, traz um sono pesado como a galinhada do jantar.