Aberto: Segunda a Sábado / 24 horas

Avenida Amazonas, 840 ou rua Tupis 477. Tanto faz porque, se você não conhece, trata-se do mesmo endereço. Mas como, pode perguntar o desavisado leitor? Se você é daqueles que nunca beirou o Mercado Central de Belo Horizonte, certamente não vai entender como Amazonas, 840 e tupis, 477 são o mesmo endereço. Mas, se você é daqueles que frequenta as delícias de um fígado acebolado, com cerveja gelada naquele belíssimo quadrilátero e gosta de experimentar outras guloseimas das adjacências, certamente você já entrou pela Amazonas e saiu pela Tupis, ou vice-versa, deixou uns trocados no balcão e saiu daquele beco com a sensação de ter acabado de visitar um cantinho do céu. Para os, ainda, não abençoados, eu explico. Há exatos trinta anos, um brasileiro batuta de nome Raimundo de Assis Corrêa e apelido Nonô, precisando arrumar um jeito de criar a familhagem alugou um cubículo na Tupis, 477. Comprou um fogão e começou a derreter o mocotó que a mulher, Alaídes, limpava na própria casa. Na porta da loja, Raimundo colocou uma placa: Nonô, o Rei do Caldo de Mocotó. A partir daquele fevereiro de 1969, nunca mais a peãozada foi para o serviço de barriga vazia. Às cinco da manha o mocotó já está fervendo, oferecendo sustança até pelo cheiro da fumaça.

Independente da hora, a moçada chega abrindo o caminho com uma Ferreira ou uma Seleta. A primeira não me lembro de onde mas, certamente é do Norte de Minas. A segunda é de Salinas e, independente da origem, as duas são da melhor qualidade. A pedida seguinte é um caldo de mocotó, na maior quentura, com capim e/ou viagra, a gosto do freguês. Capim é o cheiro verde, viagra é o ovo de codorna que cozinham, em meio ao caldo, a caminho do fogão para o balcão. E para completar a ceia nunca falta a opção de um torresmo de bacon, coisa única, que não me lembro de ter visto em quase cinquenta anos de romaria por botequins. O prato é um só, mocotó, mas a casa oferece duas outras consagradas opções de entrada: conhaque de alcatrão ou a mais gelada Caracu. E para quem pensa que anda fora de moda, a preta e forte Caracu ainda faz um sucesso louco entre os que acreditam que, bebendo de manhã, serão felizes à noite. E a crença é tamanha que o bar já ganhou até condecoração da fábrica. Poucos neste país, vendem tanta Caracu como Nonô.

A esta altura Nonô Filho já que o velho resolveu frequentar freguesia mais acima, deixando aqui na terra D. Alaídes e a prole de cinco. Quem assumiu foi o mais velho e, trabalhando unida, a família alugou a loja da Amazonas, derrubou a parede dos fundos, e fez das dias uma loja só. Com dói endereços. Nestes trinta anos muita coisa aconteceu por aquelas bandas. A cidade cresceu, brotaram prédios e mais prédios na vizinhança, reformaram ruas e avenidas, montaram novas lojas, ponto de ônibus, etc. Só uma coisa não mudou: Nonô, o Rei do Caldo de Mocotó, continua lá, de manhã, à tarde ou à noite, fazendo a alegria de milhares de brasileiros batutas. O que ninguém conhece é um pequeno detalhe: até hoje, lá se vão trinta anos, lá está, em casa D. Alaídes Conceição Corrêa. Nada menos que 10.950 dias raspando, lavando, aferventando e cozinhando cambitos de gado para servir, até mil canecos de alegria, por dia. Eu disse um detalhe? Não. Me perdoe D. Alaídes. Não é um detalhe. É uma vida inteira alimentando a peãozada, milhares de filho que você nem conhece. Em nome deles, D. Alaídes, eu lhe peço a bênção. E agradeço pedindo desculpas por não tê-lo podido fazer domingo passado, no seu dia.

 

Jornal Hoje em Dia, 14 a 20 de Maio de 1999

Jornalista Leonel da Mata